Total de visualizações de página

FORMIGUÍSSIMA NOIVA

Veja, eu fui ontem à igreja
pra rezar mais uma vez.
Fez-se verso imediato
o fato que lá se deu:
aconteceu que chegando,
sentando num banco enorme,
o povo, todo uniforme,
em pensamento cristão;
naquela igreja tão grande
onde o eco se expande
do vigário pelo espaço,
qual laço religioso,
francamente sinto:
do meu terço, só um quinto
consegui rezar.
Parar, eu fui preciso:
o meu juízo diferente
se voltou à passarela da igreja,
pois, veja,
o que eu vi, à luz da vela,
sobre o tapete estendido,
comprido, no chão do templo,
em tempo de assim perder-se
no meio dos mil fiéis:
uma formiga! Tão linda!
Caminhando para o altar...
Tentando chegar mais perto,
decerto pra confissão?
Não! Sem roupa e sem tamancos,
toda vestida de branco
pela poeira da rua, da lua
e do céu cinzento.
Sem pinturas, sem frescuras
e sem disfarce na face;
não ia confessar-se:
era o seu casamento!
Mas quem é o noivo dela,
que ninguém o percebeu?
Alguém que olha pra ela
e vê a noiva mais bela:
sou eu!
Mas não sou formiga macho,
sou um facho, gente, humano...
mas gosto tanto de doce
que é como se eu fosse
um formigão de verdade,
contente, perto do padre,
e o meu subconsciente
toca música pra gente
numa orquestra imaginária.
É a marcha nupcial,
mas o povo em geral
não percebe
o nosso enlace matrimonial.
Formiga, minha formiga!
Me diga agora, depressa,
confesse neste momento
santo, bento,
por que quis casar comigo?
Ah! Nem pode responder-me.
É até melhor que cale-se:
o padre já vem com o cálice
comungar a multidão.
E a multidão não pára
e nem percebe a formiga
na luta sem proporção...
que desgraça, o povo passa
e a noiva é esmagada,
sem pena assassinada
pelos pés dos pecadores
que cantam cânticos
catequéticos, patéticos,
proféticos, profanos.
Trouxeram-me o desengano.
E o branco do firmamento
virou sangue, sofrimento,
virou angústia e tristeza,
desgosto, mágoa e frieza
rolando pelo meu rosto
uma lágrima de dor.
Amor que fica no peito,
sem leito para dormir,
sem motivos pra sorrir,
com razão para chorar
e ter sempre que lembrar
essa história que afeta
o sorriso do universo
que vive em disritmia.
Mas na lembrança, a saudade
e a saudade anuncia
nas leis que o tempo decreta:
perdeu a noiva o poeta,
mas se casou com o seu verso
e viveu na poesia.
Antonio Victor

3 comentários:

Victor Says:
14 de março de 2012 às 06:23

Fantástico!! Eu sou suspeito pra falar, sou fã número 1 do meu pai. risos

filho Says:
29 de junho de 2012 às 12:39

Tive o prazer de ser aluno do professor de literatura Antonio Victor na Escola Van-Gualberto, se não me engano em 2002...Oportunidade esta que talvez não aproveitei como deveria, porém ficam inesquecíveis aqueles bons momentos em minha memória. Obrigado professor e tudo de bom na sua carreira

Unknown Says:
7 de maio de 2015 às 06:01

Conheci Antônio Victor no Colégio Hugo Lobo em 83, 84 eu acho, a diretora da época, famosa tia Belinha, o apresentava pra turma com maior orgulho. Eu já conhecia um pouco do seu livro e me apaixonei de cara por Formiguíssima Noiva, uma vez pedi e ele a declamou na sala, adorei! guardo comigo essa lembrança tão boa e que entre outras fez com que eu me apaixonasse pela leitura da qual não sei viver sem.

Postar um comentário